Relator do processo da trama golpista no Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Alexandre de Moraes tem dado sinais a colegas da corte de que hoje sua tendência seria manter a validade do acordo de delação premiada do tenente-coronel Mauro Cid.
O magistrado negou, nesta terça-feira, o pedido da defesa de Jair Bolsonaro para anular a tratativa sob o argumento de que é "absolutamente inadequado" se debruçar sobre esse tema nesse momento do processo.
Entre integrantes da Primeira Turma do STF ouvidos pela coluna existe a leitura de que ainda é “cinzenta“ a história que permeia os diálogos de Mauro Cid trazidos pela revista “Veja” com críticas à maneira como a Polícia Federal e o Supremo conduziram sua delação.
O fato do advogado Eduardo Kuntz, que defende o ex-assessor de Bolsonaro Marcelo Câmara, ter apresentado ao STF as mensagens publicadas pela revista se colocando como o interlocutor que conversou com o tenente-coronel tornou o cenário ainda mais nebuloso, na opinião dos magistrados.
Kuntz também pediu a Moraes a anulação do acordo de delação de Cid. Para ministros ouvidos pela coluna, a conversa em si não deve ensejar o cancelamento da tratativa, mas se aparecerem desdobramentos do caso mostrando que Cid atendeu às demandas do advogado, o acordo pode ser anulado com riscos não só para o tenente-coronel, mas para Eduardo Kuntz. A atuação do defensor de Câmara pode ser considerada obstrução de Justiça, a depender dos desdobramentos da ação.
Outro fator que pode mudar os rumos da delação de Mauro Cid, que hoje tende a ser mantida, é a acareação que o ex-ajudante de ordens terá com o ex-ministro e militar da reserva Walter Braga Netto .
O foco central da defesa de Braga Netto é confrontar Cid sobre a reunião de 12 de novembro de 2022 na qual, segundo o tenente-coronel, foi debatido o plano “Punhal Verde e Amarelo”, que visava assassinar o presidente Lula, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro do STF Alexandre de Moraes. Outro ponto que será explorado é o episódio delatado por Mauro Cid de que Braga Netto teria, supostamente, entregado dinheiro em espécie para ele com a finalidade de financiar as operações do plano “Punhal Verde e Amarelo”.
A defesa de Braga Netto afirma que usará a acareação para mostrar que Cid teria mentido sobre os dois episódios.